terça-feira, 16 de junho de 2015



Por Teologia Reformada entende-se os princípios doutrinários reformados, tais quais estabelecidos durante o período da Reforma Protestante, no séc. XVI. É também conhecida pelo nome de calvinismo – apesar deste nome não expressar “o todo” da herança reformada.Muitos questionarão se conteúdo tão antigo pode ser útil na atualidade, marcada pela pós-modernidade e tecnologia. No entanto, apesar dos avanços tecnológicos e nomenclaturas variadas, o ser humano permanece o mesmo de sempre. Não seriam os escritos bíblicos muito mais antigos? Não teria Jesus ensinado há aproximadamente dois mil anos atrás? As pessoas coerentes não devem basear seu entendimento na modernidade dos escritos, mas no valor destes, na capacidade de explicar o conteúdo bíblico e aplicá-lo à vida.A Teologia Reformada pode ser antiga, mas de forma alguma ultrapassada. Por quê? Pelo simples fato de que está inteiramente de acordo com a fé dos apóstolos, manifestada através dos séculos como a crença correta (ortodoxia).Muito poderia ser dito a respeito dos princípios doutrinários reformados, mas para ser breve e objetivo, adotei a abordagem utilizada no livro “A Glória da Graça de Deus”*.
A majestade de Deus. O ensino reformado encontra na doutrina de Deus seu princípio fundamental. O cristão reformado se concentra em Deus, e não em sua própria experiência, o que o torna teocêntrico, ao invés de antropocêntrico. Em um tempo onde o foco está no ser humano – em seu bem estar, poder, atributos, desejos, ansiedades e vontades – , a Teologia Reformada traz uma nova perspectiva, pregando que Deus é o centro, a vontade Dele é a única que importa.
“Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus” – Salmo 90:2.
A autoridade das Escrituras. A fé reformada é especialmente comprometida com as Escrituras, enfatizando sua inspiração, autoridade, inerrância e suficiência. A Bíblia toda é a fonte última do conhecimento sobre Deus e sobre a criação. O Senhor escolheu se revelar aos homens, e para a fiel propagação e manutenção desta mensagem, fez com que ela fosse escrita; de forma que “todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dEle e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (Confisssão de Fé de Westminster, I. 6).
“Sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” – 2 Pedro 1:20-21.
A condição espiritual do ser humano. Um ponto muito particular da herança reformada é a ênfase na condição espiritual decaída do ser humano. Os reformadores foram muito sinceros e fiéis às Escrituras neste ponto em particular, pois a Palavra de Deus realmente retrata o homem como um ser completamente incapaz de regenerar ou salvar a si mesmo. A condição humana não é a de um enfermo, mas de um defunto. O termo usado para isto é Depravação Total; desde a Queda, em Adão, a condição do homem é de total rebelião contra Deus, de autoadoração; todos os atos do ser humano (mesmo os mais nobres) são pecaminosos, pois a sua motivação não é a glória de Deus.
“Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais” – Efésios 2:1-3.
A suficiência da obra de Cristo. A obra redentora de Cristo é apresentada em termos do triplo ofício do Mediador (profeta, sacerdote e rei). Jesus cumpriu cabalmente sua missão, seu sacrifício foi eficaz para salvar todos os seus. Seu sangue justifica os crentes de toda a culpa do pecado, de toda a rebelião contra Deus, e leva-os a experimentar a regeneração, a nova vida, a santificação. “A ressurreição de Cristo foi uma prova concreta de que o Pai aceitou, de forma plena e absoluta, o pagamento da dívida por quem Ele morreu” (A Glória da Graça de Deus, p. 83). Desta forma, a salvação depende exclusivamente de Cristo, e as boas obras devem ser praticadas como expressão da gratidão cristã pela salvação obtida e por obediência ao nosso Senhor.
“Porquanto há um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” – 1 Timóteo 2:5.
A soberania de Deus na salvação. Este aspecto provavelmente é o mais conhecido da Teologia Reformada, o famoso acróstico TULIP – também conhecido como cinco pontos do calvinismo. Foi no Sínodo de Dort (1618-19), como resposta ao protesto dos arminianos, que estes pontos foram firmemente estabelecidos. T (Total Depravity), afirma que o ser humano é Totalmente Depravado, desprovido de qualquer interesse por Deus, sem a liberdade para escolher seu caminho, aprisionado pelo pecado. U (Unconditional Election), significa Eleição Incondicional, que Deus nos elegeu antes da fundação do mundo para sermos seus filhos amados, não baseado num pré-conhecimento da atitude humana, mas apenas no beneplácito da sua vontade. L (Limited Atonement), por Expiação Limitada entende-se que Cristo morreu apenas pelos eleitos, tornando o sacrifício vicário 100% eficaz, nenhuma gota de sangue foi derramada em vão. I (Irresistible Grace), a Graça Irresistível alcança os eleitos, abre seus olhos, de forma que eles não podem resistir ao toque do Espírito Santo, entregando suas vidas em submissão à vontade de Deus. P (Perseverance of the Saints), significa Perseverança dos Santos, que todos os eleitos perseverarão nos caminhos de Deus, pois o próprio Deus é quem os sustenta e os mantém no caminho da salvação.
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” – Efésios 2:8-9.
“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” – Romanos 8:29-30.
A centralidade da pregação nas missões. O Senhor nos legou uma missão, a de levar o Evangelho a todos as pessoas. E qual é o método? A pregação da Palavra de Deus. Ao contrário do que muitos pensam, a doutrina da eleição não prejudica o empenho missionário, o histórico do avanço missionário confirma que os calvinistas sempre estiveram envolvidos nessa atividade, tanto que as primeiras organizações missionárias foram fundadas por reformados. Evangelizar é cumprir um mandamento, é entender o amor de Deus por seus eleitos, é obedecer o chamado divino de proclamar o Evangelho por toda a terra. Esse chamado não é para alguns, mas para todos. Como disse o famoso pregador calvinista C.H. Spurgeon: “Todo cristão ou é um missionário, ou um impostor”. Crer na soberania de Deus na salvação não nos impede de proclamar a verdade, mas nos dá maior convicção de que a mensagem não voltará vazia, pois o convencimento do pecado, da justiça e do juízo não é responsabilidade nossa, mas de Deus; nossa responsabilidade é a de semear, mas a frutificação somente virá pela obra do Espírito Santo, na vida dos eleitos de Deus, por meio do preço pago por Cristo na cruz.
“E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” – Romanos 10:17.

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